Cachorros olham com os olhos. Usam para seu fim aquilo que lhes foi dado. Vivem no pleno uso de seus dons.

Na tarde sem porquê, eu observava Nicky e entendia tudo. Foi um momento de epifania, foi como um raio sem som.

Ele me pareceu vivo, mais desperto que todo homem que eu vira um dia. Sua presença era de uma solidez sem vírgula.

Respirava, sentado, quieto, vazio de intenções, repleto de ações fluidas, movimentos em potência, solto dentro de si.

Eu deixei cair meu livro e relaxei. Chamei Nicky de filósofo. Nesse momento ínfimo eu aprendi um segredo. Ou dois.

Que meu tempo é uma ação impotente. E que nossos atos, planejados, repensados, são pedras encaixadas em muro.

Pensamos com os olhos e tentamos ver com a medula. Ouvimos com as mãos. Falamos na digestão.

Nossos passos, automáticos, são palavras que dizem coisa nenhuma.

Nosso tempo inexiste para Nicky.

Nostalgia do rabo.

 

 

Antonio Cristo
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