Première

Première

AO CAIR DA NOITE,
EU NÃO TEMIA NADA,
ALÉM DO FRIO E DO CANSAÇO
(DOIS VIZINHOS MILONGUEIROS
QUE, CRESCIDOS POR AQUI,
SEMPRE, SEMPRE SABOTARAM
MINHA SEDE DE VIVER).
 
DE REPENTE, VEIO UM RAIO,
BEM AO TOM DE UM MANDAMENTO,
QUE ACIRROU A ESCURIDÃO
E SOLTOU UM MUNDARÉU
DE VERTIGENS INFERNAIS.
 
ERA O FIM DA MATINÊ,
A PREMIÈRE DAS PROVAÇÕES.
 
ENTÃO, TODOS OS ACASOS
DESABARAM SOBRE MIM,
E JUSTO MEUS DESLIZES REVOARAM.
(UMAS PECHAS MUQUIRANAS
ME PRIVARAM DA RAZÃO
E, POR ELAS, FUI SUJADO SEM CRITÉRIO).
 
ENTÃO, TANTAS INJUSTIÇAS
REPISARAM MEU MORAL
E JUSTO MINHA LUTA IGNORARAM.
(MEU BRIOSO INTELECTO
REDIGIU UM PLANO VIL
E A VACA DO MEU LEITE FOI PRO BREJO).
 
ENTÃO, TODAS AS LOUCURAS
BAFEJARAM DE UMA VEZ
E JUSTO MINHA PAZ AFUGENTARAM.
(AS PENDENGAS CORRIQUEIRAS
SE ESBALDARAM POR DEMAIS
E A MORTE ME CANTOU AO PÉ DO OUVIDO).
 
ERA O FIM DO INFIEL,
A PREMIÈRE DAS ORAÇÕES.
 
DE REPENTE, VEIO UM SONO,
PARECENDO O DERRADEIRO,
QUE GELOU MEU CORAÇÃO
E VERTEU O DISSABOR
EM REMORSO GENUÍNO.
 
AO VESTIR A CULPA,
EU ME DOBRAVA A TUDO,
FOSSE A CRUZ OU A ESPADA.
(ESSAS CEIFAS DO DESTINO
QUE, COVARDES PRA DEDÉU,
SEMPRE, SEMPRE VITIMARAM
OS BABACAS DE PLANTÃO).          
 
...  MAS,
QUE SURPRESA,
AMANHECEU.
 
 

Francisco Abel Mendes d`Almeida, em 2009.
 

Cantou pra mim...

"Conheço o ódio e seus argumentos, conheço o mar e suas ventanias. Conheço a esperança e seus tormentos, conheço o inferno e suas alegrias. Conheço a perda do princípio ao fim. Conheço tudo, conheço tudo, menos a mim."(Ferreira Gullar)

Na foto, Marcela Freitas.