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Buraco negro

Pretendia começar a poesia assim:

... e toda a dor vem do desejo

de acabar a transa, antes

do bom começo -

sempre um fim que se liga

ao início,

sempre um círculo de angústias,

e sempre o mesmo desenrolar,

eu e alguém, uma outra vida,

um outro universo,

mais um buraco negro

a desviar a minha luz,

a comer as pontas

dos meus dedos,

a sorver

os meus sucos.

Mas faltou métrica,

e sobrou hipocrisia.

Estou perdendo a mão

(diria o seu Manoel,

meu finado pai).

 

Mas ele já era velho,

era um bom marceneiro,

honesto portuga no meio

dos seus cavacos de madeira,

e seus formões e brocas.

 

Ele não era hipócrita.

Não sabia de buracos negros.

Jogava sueca.Tomava cerveja Malzbier

Fumava cigarros Lord Club

Usava à perfeição o esquadro, o meu velho...

Sabia o que era sucupira

sabia o que era cerejeira

e quão caro e difícil

era o mogno.

 

E amava a família

E amava a mulher, a Amélia

E amava a filharada

E me amava.

 

(De onde veio, então,

essa hipocrisia toda

que muita vez me assalta

só p'r'eu agradar o meu

próximo?)

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Fernando Naxcimento
20/04/2009