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Menina morta

Vidas atrás, tu e eu:
moleques transviados.

A camisa listradinha da moda,
e a descoberta da impunidade,
sem medo, bêibe, sem maldade.
A camisinha grudada em ti
e teus seios-meninos...

O CD não descolado
apesar do plano perfeito,
e o olhar, meio sem jeito, assim,
no CD do Raul Seixas...

O banho de perfumes
que me destes, e os cheiros vizinhos
sensuais, e a pressão da mass-mídia,
demais, bêibi, demais.

E nós dois na cachoeira
na nossa Marombassanta
e o baixa-santo teu e meu,
nosso batismo safado
de cânhamo e fluidos
e suor e patchouli...

O carro quebrado madrugadinha,
na mata fechada. O incenso nas mãos
e os risos de rebrilho, e o namoro-arrochado
no ponto.
Suados, quentes, tu sorris, eu tonto.
O carro nosso, deusa,
pra sempre inútil...

E o desejo nosso fútil
de morar por lá, bichos-do-mato.

No ônibus pra algum lugar,
de novo pé-na-estrada,
no ato,
mochilas, canequinhas,
bolsas a tiracolo
o imprescindível cobertor
quadriculado.

E eu, alucinado
com teu medo fake de seres assaltada
por teu vândalo, n’alguma curva
mais escurinha – o teu desejo
confesso, maroto, safado
de seres violada, agorinha,
naquele berço fofo
de flores-gilquinhas...

***
A camisinha grudada,
o CD, o banho sagrado na mata,
o teu despudor, a minha tara,
o nosso carro quebrado,
pobre coitado,
a doce violência, o afago,
o seu medo-pânico fingido
do teu vândalo/vassalo
em nossos transportes de gozo,
minha princesa, princesa,
princesa, princesa minha,
minha deusa, meu amor,
meu amor...!

se foram, todos, pra sempre,
contigo.

***
Hoje, sou respeitável,
sou cidadão imaculado,
verdadeiro pilar
da comunidade...

Aqui, hoje, cercado desses luminares,
sobrenado. E sobrevivo nessa
descarnada realidade
do meu dia-a-dia.

Sabes? Nessa casa fria
coisas me vêm na cabeça, doidas,
quando chove como agora...

É que sozinho fiquei
pra sempre, querida, tragicômico,
depois que te fostes, assim,
tão casual - enguiçado
n’algum ponto remoto
do tempo

perdido pra sempre,
à cata da nossa vida,
do teu rosto
teu suor
tua voz
de ti

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Búzios, como sempre. Chove a cântaros...

Fernando Naxcimento
14/11/2006

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