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DESEJO OU DEVER ? (conto)

[Ilustração não carregada]

A cada requebrada daquelas ancas na saia justa, salto alto, maquiagem viva, arrancava suspiros dos peões da obra, encarapitados  nos andaimes...Era um frisson  para todos.  Os olhos de Antonio, mãos e corpo sujos de poeira  e suor, cabelos desalinhados sobre a pele morena vislumbravam aquela mulher com anseios animalescos, misto de desejo e luxúria, fera aprisionada retendo forçosamente seus instintos... Saberia ela o que causava naqueles  homens simples? Seria negligência, ou vaidade feminina de ser cobiçada, ou talvez  desleixo, afinal eram eles pobres detalhes, imperceptíveis... Passava parecendo desfilar em sua elegância, fragrância de seu perfume evolando nos olfatos, sua feminilidade aguçando interesses ,despertando anseios e sonhos, era uma tentação.

- Seria capaz de uma loucura para ter esta dona em meus braços, suspirou  o rapaz amassando cimento e cal, transportando tijolos. A rigidez de seus músculos pareciam mais intensos, o sangue a ferver, nervos retesados.  Os olhos a perseguiam até que adentrasse o edifício de escritórios logo mais a frente. Invariavelmente a cena, como em um ritual previsível,  acontecia em cada manhã. O frescor de seu corpo rescendendo ainda ao banho e seu aroma inebriante denunciavam sua presença desejada. Nos semblantes toscos adivinhavam-se os pensamentos cobiçadores, as expressões faciais dispensavam a verbalização de suas intenções reprimidas.  Pareciam famintos diante à comida exposta mas inacessível.

 A enxergava quando se dirigia à cozinha, com pequena varanda  dava para vislumbrá-la vez ou outra, localizada na parte de trás do  prédio vizinho, terceiro andar.

À noitinha, no silêncio da obra deserta, trocadas as roupas, caminho de casa, coletivos lotados, retornavam de suas labutas diárias, imagens que deixavam os arranha-céus e desenhavam os arrabaldes pelas janelas dos ônibus com destinos a lares humildes, casas de poucos cômodos, jooões e marias, tarefeiros e empregadas domésticas,  anônimos retornando para o descanso de mais um dia...

Tudo parecia transcorrer sem novidades naquela manhã, onde o silêncio era quebrado pelo som de marretas, o levantamento de carga para o esqueleto da construção que se adiantava cada vez mais. Os operários lembrando formigas trabalhando em grupos transportando em carriolas os materiais içados por roldanas aos patamares mais elevados, onde outra equipe aguardava. A obra se agigantava, mais uma a somar naquele mar de concreto, em breve mais um lançamento imobiliário.

Deu-se o alvoroço numa dessas manhãs qualquer,  as sirenes do corpo de bombeiros, altercando a barafunda na algaravia de sons desesperadores e alarmantes com policiais e ambulâncias denunciando a catástrofe em chamas que lambiam o edifício próximo, e tufos de fumaça enegrecida a envolvê-lo ...

 Em breve, a  multidão estarrecida de curiosos a assistirem, apalermados e impotentes, com a presença da imprensa ávida de informações e informando telespectadores e rádio-ouvintes sobre o desastre funesto.  Ardia a construção, encurralando os que nela se encontravam, reféns do imprevisto e calamitoso incêndio. Aturdidos e incessante os bombeiros em seu mister louvável mas de aparente pouco resultado, diante ao avanço das labaredas  na fogueira magistral.

 

Há momentos em experiências inusitadas em que nos desconhecemos, como se nos apresentássemos a nós mesmos, incapazes de nos reconhecermos em certas circunstâncias; fato que se verificou em um  daqueles operários da construção vizinha, destemido e audaz, vencendo resistências e invadindo o edifício condenado, voluntariamente parte  do tormento daquelas vítimas. Como costumeiramente observava a mulher de seus desejos, acompanhava seu trajeto pelas salas e se encaminhava para a cozinha, a via à distância do alto de seu andaime, todos os dias. Estava a três andares do estacionamento, observou que havia uma entrada pelos fundos, na lateral, local em que o fogo ainda não havia se propagado, embora já tomado pelo calor do mormaço, além dos gases tóxicos, não tinha tempo a perder.  Não cogitou dos riscos a que se expunha, pulou o muro da construção, sofrendo algumas escoriações e adentrou pela lateral vencendo os andares pelas escadas, chegando ao pequeno refeitório onde sempre observava a razão de suas atenções. A encontrou só, desfalecida. Retornando com ela em seus braços acostumados ao peso, e ganhou alguma distância, até entregá-la a paramédicos que a socorreram, desmaiara pela ingestão da fumaça, não havia sinais de queimaduras, continuava linda e desejável, sentiu o aroma do perfume de seu corpo junto ao seu peito, estava salva. Aquilo parecia cena cinematográfica, não se detivera em analisar os riscos a que se expôs, tomado pela vontade de socorrê-la, ainda que também pudesse ter sido vítima.Valentemente, expondo-se ao inferno e resgatando a moça desacordada em seus braços fortes.  Saíram por uma porta lateral e conseguiram se colocar a metros de distância daquele fervor abrasador. Sem saber exatamente como, trazia Antonio a desfalecida e cobiçada jovem a desfilar cotidianamente com sua beleza e sensualidade para aquelas almas simples e sequiosas de emoção e vida representadas por aqueles homens, servidores braçais.

Aquele gesto heroico, não passou em branco, televisionado em tempo real, noticiado em todas as mídias; quem seria aquele homem corajoso, capaz de enfrentar tão obstinadamente o perigo para salvar aquela mulher ?  Sem nem se aperceber disso, entretido em entregá-la sã e salva, não dimensionou a repercussão dos fatos, acostumado à sua simplicidade e anonimato, despertando a atenção de todos.

Colocaram a máscara de oxigênio também para ele, teria inalado a fumaça perniciosa, e ficou sentado por minutos dentro da ambulância, sendo assistido por enfermeiros. A linda e cobiçada jovem ficou deitada, medicada e tendo os primeiros socorros ali mesmo, visto não se ter constatado nenhuma queimadura ou lesão grave. Nunca a tinha visto assim, tão próxima dele.  Era realmente bela, talvez isso a tenha salvo, o despertar das atenções que fizeram dele um seu guardião, desejando-a à distância, providencial naqueles cruciais momentos.

Viu-se foco de entrevistas, requisitado por todos, cumprimentado e elogiado, era o assunto dos próximos dias. Até correu pela internet uma colaboração financeira para ajudá-lo, além de ser apresentado em um programa na TV.

De todas as perguntas a ele direcionadas, só uma cisma tinha consigo ( não perguntada por ninguém, que não conseguiria responder nem para si mesmo:  foi por desejo ou dever ?

Selecionado para publicação na antologia CONTOS ARDENTES, 2019, editora CBJE, Rio de Janeiro-RJ.

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EDILOY A C FERRARO
21/09/2019